wordpress

Performance de Beatriz Matos durante a Explode! Miniball Motumbá – Sesc Belenzinho, São Paulo

 

 

Explode! é uma plataforma que pesquisa e experimenta noções de gênero, raça e classe, baseadas em práticas artísticas e culturais socialmente entendidas como periféricas, cruzando também os campos da pedagogia e da justiça social. Ela se organiza através de uma rede nacional e internacional de colaboradores e é representada pelos artistas, pesquisadores e curadores Cláudio Bueno e João Simões. Entre as principais atividades realizadas, conforme descrito abaixo, estão: Explode! Residency; Explode! Motumbá; Explode! Rainbow Riots e Ataque!

 

 

Explode! Residency

De um espaço de segurança há um espaço de coragem
From a space of safety to a space of bravery



Não ter sido oficialmente convidada para a residência, mas ter acompanhado um amigo convidado [Ezio Rosa] num lugar que também era novo pra ele, se apresenta para mim como os nossos corpos ainda precisam ocupar alguns espaços. Como ainda para nossos corpos pretos, pobres, afeminados temos que estar num movimento de nos inserir em lugares que hegemonicamente são brancos, causando e sendo um desconforto. Podemos tentar pensar sobre isso a partir das questões de comunicação que tivemos na residência, em que havia a necessidade de tradução porque nem todos tínhamos o domínio do inglês. Eu ouvi muito mais do que falei na residência. Por conta da necessidade de tradução ouvi duas vezes, uma em inglês e depois em português, e esse exercício de escuta duplicada foi extremamente cansativo e interessante. Foi como se estivessem ratificando o dito, ou também como numa leitura difícil a gente precisa ler mais de uma vez pra conseguir entender. Ouvir mais de uma vez e depois falar pausadamente para ser compreendida não é um hábito do sujeito contemporâneo. A pergunta que me faço é: Como resistir às imposições de uma língua colonizadora? Como não se permitir dominar pelas ferramentas dos dominadores sem se excluir dos lugares dominados por eles?
Jo Gada (1991, Niterói, Rio de Janeiro)



Explode! Residency foi uma imersão-residência de onze dias (entre 23 de agosto e 2 de setembro de 2016), em uma casa na Zona Leste de São Paulo, localizada na Vila Nova York, onde Cláudio Bueno morou até os 22 anos e seus pais até 4 anos atrás. A residência fez parte de uma série de eventos do projeto Cidade Queer.

Nesse local, a 20 km do centro da cidade, esteve reunida uma comunidade de artistas visuais, performers, dançarinxs, agentes culturais, militantes e pesquisadorxs, engajadxs em pensar e apresentar, a partir dessa zona autônoma temporária, as potências desses corpos periféricos urbanos, dispostos a assumir, com suas ideias, saberes, lutas e presenças, o protagonismo e a transformação do mundo atual, especialmente no contexto brasileiro, tomado por retrocessos, conservadorismos e violência.

Além dos encontros públicos que atravessaram a residência, com diferentes falas sobre corpos, periferias, gênero, sexualidade, migração, dança, colonialidade e aprendizagem, estiveram conosco, compartilhando sua metodologia de escuta, os integrantes do grupo norte-americano Ultra-red. Com uma pesquisa baseada no som e no mapeamento de espaços acústicos como enunciativos de histórias e relações sociais, eles nos trouxeram a intensificação da perspectiva política dos sons. Esse grupo de artistas-ativistas militam por questões raciais, de migração, desenvolvimento participativo de comunidades e criação de políticas de HIV/aids.

Entre os sons noturnos do bairro – do possível ladrão de galinhas no telhado ou do tiro seco do trêsoitão –, dançamos diferentes estilos musicais de contestação, de resistência e de luta. Músicas que potencializam corpos negros, feministas, não binários, transgêneros, gays, pobres, latinos etc. – como o vogue (enfatizado nesse período pela presença do legendary icon Pony Zion e do brasileiro Félix Pimenta), – além do funk carioca, do hip-hop, do samba e outros. Caminhamos pelo entorno da casa, nos colocamos no bairro, dançamos na rua e partilhamos uma longa conversa e escuta.

Acreditamos nesse processo imersivo e num modo de aprendizagem baseado na escuta como intensificadores de uma longa conversa e debate, capazes de desencadear as questões mais profundas e urgentes a nós. Vislumbramos, na escuta, a possibilidade de produzir um saber que passa pelo corpo, que não repete (ou repetiria em menor grau) o que já é sabido de antemão. Dessa forma, talvez seja possível, em alguma medida, pensar na descolonização dos conhecimentos e imaginar mundos, corpos e vivências outras.

Se a noção de casa remete idealmente a um local físico de acolhimento e pertencimento, buscamos instaurar bases para um espaço de segurança e intimidade que guarde a potência e a braveza de também acontecer no mundo, local mais suscetível aos conflitos e aos embates diante das diferenças, uma casa-mundo, sem paredes. As ideias compartilhadas nesse espaço fechado podem agora contaminar outras pessoas e potencializar novos encontros, corpos, afetos, sensibilidades, políticas e ativações para fora dessa situação e localização temporária e específica.

Traduzir aqui algo vivido na intensidade de uma experiência direta do corpo e dos diálogos mais íntimos entre um grupo de pessoas somente poderia ocorrer na pluralidade de visões-escutas-falas-escritas-vozes de cada um dos participantes. Para tanto, perguntamos a todxs, como nos perguntaram os membros do Ultra-red, Michael Roberson e Robert Sember, ao longo de toda a residência, sempre após uma caminhada ou compartilhar conteúdos na sala de casa: What did you hear? O que vocês escutaram?

wordpress

Aretha Sadick Meu nome de registro é Robson Rozza, mas pode me chamar de Aretha. Tenho 27 anos, sou ator, atriz, performer e designer de moda. Eu vim para cá [Explode! Residency] pela minha pesquisa dessa imagem, dessa identidade negra, dessa performatividade do trânsito do masculino para o feminino; pelo meu engajamento e pela consciência de que eu estou criando algo que não é estável. E também por causa dessa experiência com a residência, dessa oportunidade de passar um tempo junto. Um recorte que é maravilhoso e ao mesmo tempo muito bruto, de sair do nosso cotidiano e estar com outras pessoas, dormir e acordar com elas, beber, comer etc. Onde mora a força? Eu brinco com as pessoas quando me perguntam: “Você está bem?”, e hoje em dia eu respondo: “Eu estou viva”. E é isso. É se manter viva num lugar assim, neste mundo. Viva em todos os aspectos, não só fisicamente, mas emocional, intelectual e esteticamente. Então, atualmente, eu entendo a força como esse lugar de estar viva. Pessoas como eu têm que pensar duas ou três vezes antes de ir a determinados lugares. A força está no lugar dessa vida (escolha) aonde dizem que eu não devo ir, mas eu vou e como vou. E eu vou para manter minha presença viva nesse lugar. É um esforço, é preciso muito trabalho, físico, emocional e mental. Mas acho que a força mora nisso e também nesse lugar que eu vejo: de pessoas como eu, que vieram do mesmo lugar que eu. De conseguir trabalhar todos os dias para continuar enxergando esse lugar que pessoas como eu não podem transitar de maneira mais livre. Aqui [na Explode! Residency] eu reforcei essas percepções. Tem horas que a gente fica se indagando: “Eu estou meio louca, né? Fico acreditando em coisas que várias pessoas não acreditam, que não fazem sentido”. Então é bom encontrar os pares, encontrar os comuns, as pessoas que também acreditam nisso. E você olha para pessoas como você e pensa: “Ai que bom. Eu não estou só nessa caminhada. Não é loucura minha”. Porque é isso, a gente começa a questionar tudo, todas as coisas, como elas estão organizadas. Estar aqui foi reforçar esses pensamentos e ver que eu não estou vislumbrando esse lugar para pessoas como eu, que não estou sozinha, existem outras como eu querendo construir esse lugar. Não só vislumbrando, mas construindo; gente construindo junto. E foi isso, intenso. Para mim as palavras são intensidade e cura. Porque, como falei em outro momento, essas dores e esse peso que senti e levei na oportunidade que tive ao sair da casa e voltar, e ver isso curado – foi posto para fora, foi discutido com outras pessoas, foi compartilhado. Uma cura intensa. Não tem cura sem dor. Não tem como curar sem doer. A dor e a cura estão interligadas.

Aline Scátola Vi resistência, força e criatividade. Ouvi expressividades que celebram origens, ultrapassam linguagens e transbordam territórios. Senti o acolhimento de dores e delícias, a potência das agências, a força dos quereres, a grandeza das existências. Todo corpo é político, herético e divino.

Cadu (LaBeija) Oliveira A primeira coisa que me impressionou em minha experiência na Explode! Residency foi o número de pessoas negras e a diversidade existente dentro desse grupo, não só de nacionalidades, mas de vivências e de gênero. Infelizmente, é raro estarmos juntos em número significativo em ambientes produtores de arte e conhecimento que não sejam exclusivamente de discussão étnica. Conhecer a cultura vogue, aproximar-me dela e descobrir no ballroom um “templo”, foram imagens emocionantes sobre o sentimento de pertencimento e de celebração das identidades, e que me remetem diretamente ao “fervo também é luta” e ao “corpo livre” que temos como diretrizes na Revolta da Lâmpada. É evidente a influência que existe em fazer parte de um povo marginalizado e excluído. E isso criou em mim uma empatia tamanha que, muitas vezes, ouvir Michael, Lee Ann ou Ponny trazia uma sintonia muito próxima à dos papos com Aretha, Jo Gada, Ezio ou Félix. Existia para além da língua um elo tão forte que, na aula de vogue, Ponny propôs o DropDead, e eu o fiz sem pensar duas vezes, embora fosse uma realização inimaginável para mim antes disso. Estávamos em um ambiente seguro de aprendizado e experimentações onde as possibilidades eram infinitas. Isso nos colocou em contato com assuntos importantes, como a infecção da população preta pelo hiv, questões de gênero e sexualidade, a situação dos refugiados e, até mesmo, de enxergar nosso país por meio do olhar dos companheiros de outros países com toda sua beleza, sons e particularidades. A produção artística era efervescente em nossos corpos, performances, registros, festas e na comida da Nega. Eu venho trilhando um caminho de autoconhecimento intenso e profundo com a Comunicação Não Violenta, círculos de convivência e as performances de gênero, por isso minha gratidão é imensa a todos os presentes e realizadores por me possibilitar colocar essa residência entre essas práticas transformadoras. A imersão na Explode! Residency foi muito potente, porque trouxe trocas genuínas e marcantes com pessoas admiráveis que se tornaram um círculo generoso de convívio. Embora o Brasil tenha em sua população uma expressiva maioria de pretos e pardos, é muito difícil num espaço de arte e conhecimento estarmos, nós negros, tão amplamente representados. Representatividade importa, transforma e fortalece.

Daniela Mattos O afeto se destacou entre as coisas leves e pesadas que compartilhamos, desfizemos binarismos, empatizamos entre nós... De fato, convivemos.

Danila Bustamante Em meio à intensidade das cores, à potência de cada diferente, ao drama coletivo e a um condensado de histórias muito mais que reais: eu vi, eu me vi e me viram. Essa conexão explosiva fez brilhar ainda mais as minhas questões sobre qual é a imagem feminina que passamos adiante, qual existência e visibilidade é real em um corpo em movimento.

Ezio Rosa Pela primeira vez na história deste país (risos) tive a minha arte reconhecida em um desses espaços que sempre se mostrou tão distante da minha realidade periférica. Eu era uma das poucas pessoas que precisavam de tradução e, após muitos apontamentos, críticas e acordos, juntos conseguimos identificar e resolver esse ponto que é o processo de descolonização dos saberes. Durante a residência, eu e a minha mana Jogada Away ocupamos um cômodo da casa que era semelhante a um aquário e como partimos de um lugar de fala parecido, performamos juntos por cerca de seis ou sete horas. O trabalho se chama Cuida do Black! e nessa performance eu trançava o black de Jô enquanto escrevíamos nos vidros da sala sobre o processo, e nesse momento me caiu a ficha de qual arte é essa. Essa é uma arte periférica e que, embora invisibilizada o tempo todo nos espaços das belas-artes, grita a plenos pulmões pelo seu direito de existir. A residência me trouxe muitas reflexões profundas, mas de fato o que ficou é a força para lutar e criar minha própria narrativa, com essa arte que se cansou de pedir licença para ser e estar. Eu existo, nós existimos.

Félix Pimenta Sobre a vivência no Explode! Residency, foi muito importante sentir a necessidade de escuta. Escutar e vivenciar todas as histórias, principalmente saber que eu não estou sozinho, que as histórias são muito parecidas, criando assim muitas conexões – e, com essa experiência, poder criar muitas outras coisas juntxs. E nós estamos criando!

Jo Gada A residência foi toda preenchida por uma arte de resistência queer, o banheiro virou um estúdio fotográfico de closes monstruosos, da cozinha saíram obras de arte que nos alimentaram com o que normalmente iria pro lixo e, no aquário de vidro que tinha no quarto, trançamos afetos, desenhamos um mural de emoções, rabiscamos nossas contradições e queimamos nossa consciência colonizada.

Mavi Veloso Acolhida respeito conflito guerrilha raiva revolta busca de força energizar-se no colo do semelhante diferente cada um com sua bruta cada um tem sua luta interna com os semelhantes com os diferentes causas absurdamente ainda injustiçadas pela dificuldade e pela diferença afetividade generosa intimidade rainhas compartilham tronos todas queens batem cabelos e tranças ainda há reviravoltas, tem gente querendo puxar nosso tapete mas isso não vai acontecer.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Paulo Scharlach Conforme passavam as horas, que mais pareciam dias, dentro da casa na Vila Nova York, compartilhando refeições, ideias, tristezas, felicidades, histórias passadas, desejos futuros, euforias e cansaços muitos; compartilhando vidas completas que a gente nem imaginava que poderiam caber em tão poucos dias e que estariam tão conectadas, senti a possibilidade real de existência na sua mais plena forma. Me senti acolhido para apenas ser e ser em conjunto, em sociedade. Mesmo que por um instante, num exemplo tão específico e curto de sociedade, foi transformadora e fortalecedora para seguir existindo com mais orgulho, felicidade e tranquilidade de ser quem a gente sente que deve ser. Diferentemente de tantas outras vezes na vida, sentimos que tínhamos que mudar nossa forma de existência para não incomodar o mundo e, com isso, acabávamos nos matando um pouco. Ali na casa multiplicamos a vida. Em resumo: senti a possibilidade real de existir além do resistir, de ser diferente e poder compartilhar sem medo, de apenas escutar e sentir-se pleno na minha contribuição social sem ter que dizer algo. Vi as experiências e as sensações se multiplicarem, vi a vida se multiplicar.

Raphael Daibert Senti expansão. Pluralidade. A força na diferença, nas (diversas) histórias, sejam elas pessoais ou parte da dita história. Ouvi possibilidades, notei a vontade de encontrar um espaço (político, físico, social) que comporte todxs nós. Vi força e vi coragem de (r)existir.

Tiago Guiness Difícil dizer o que foi a Explode! Residency porque a forte experiência vivida ainda parece operar em mim. As questões ressurgem e eu sou transportado de volta para a Vila Nova York. De qualquer forma, acredito ter expandido a ideia de diversidade a partir da troca e da convivência com os outros residentes.

Nega (Raquel Blaque) Ouvi, vi = SENTI que quem tem potência é exposto e que não devemos fugir disso. Seja por proteção, seja por combate, nos apresentamos como seres potentes que somos, como um militante anti-indústria fugia da superexposição de expressão. Na Explode! Residency ouvi muito sobre o protagonismo negro e trans antes da indústria cultural, e o quanto e quando comportamentos foram criados por nós me fez desabrochar e ver que a gente se reprime mesmo que por combate. Eu reprimia comportamentos que eram internos achando que eram de uma cultura colonizadora. Aos 37 anos me vi fugindo de mim, achando que boicotava a indústria cultural e descobri que é ela quem nos copia. A partir dessa libertação aprendi a me expor como sou, explicitar, ocupar espaços de fala e de autoexposição. Passos para a frente e para os lados e especialmente para o alto e avante. Caminho, danço, cozinho e falo ocupando a calçada E sou livre, meu cabelo é escultural e minha voz é ancestral e ponta de lança. Em resumo: senti almas além de gênero generosas, recapitulei-me e saí exaltada em corpo físico e alma avançam e alavancam em expressões de potência e desmaculação de expressões. Dramas duros e corações moles, conversas longas e alongamentos físicos, montagem compartilhada de desejos e utopias sociais, aprofundamentos estruturais de comunicações fundamentais. Mulheres polivalentes em tetas adolescentes em vogues eloquentes em memórias transcendentes em dores convalescentes em lutas subsequentes em forças suprapotentes.

Nube Abe Talvez seja tarde demais, desculpa, mas de qualquer forma mando esse áudio. Eu tive esse período de bloqueio, eu passei por esse momento de bloqueio do Explode! porque é lembrar de muita informação, muito excesso e não saber muito o que fazer com isso, mas agora estou desbloqueando e lembrando novamente como foi maravilhoso. Eu sentava para escrever e as memórias eram tão intensas e fortes e me ocorriam lembranças das minhas crises da época e eu parava de escrever. O Explode! foi muito forte pra mim, muito intenso, muitos aprendizados, foi muito importante ouvir tanta gente falando sobre suas vivências, foi muito potente, eu escutei muitas realidades, muito close, ao mesmo tempo em que eu estava num momento muito difícil de introspecção, mas eu não estava conseguindo me escutar e perceber que estava precisando desse momento. E pensar que estávamos falando de escuta mas como seria possível silenciar em um grupo tão grande e com tanta energia e tanta coisa para falar. Eu acho que se for pensar em um próximo Explode, devemos pensar que muita coisa foi falada e escutada, mas sempre existe mais para escutar. Uma coisa mais sensível. Não sei o que é exatamente, mas podemos escutar mais do que já estamos escutando. Como escutar o que não é palavra. Como escutar o que não é som.

Yeti Agnew Ouvi muita gente falando português e também bastante inglês – pelo que agradeço. Aliás, foi muita gentileza dos bilíngues que lá estavam. O que mais me impressionou foi o apoio tangível que se demonstrava ao outro, seja trançando os cabelos e fazendo a maquiagem, seja passando por feedbacks respeitosos e oferecendo grande incentivo, sempre garantindo que todos estivessem confortáveis e bem alimentados. Pude vivenciar um grupo de pessoas maravilhosas, que ouviam e compartilhavam de maneira excepcionalmente boa. Gente que conseguia dizer a verdade com amor e compaixão, que esbanjava afeto pelo outro e que, quando havia ocasião, ousava com coragem expor o fundo de suas almas uns aos outros. BRAVO!

Lee Ann Norman Um começo… um esforço sincero de mover-se para além da superfície de coisas como números, índices e representação, e começar a repensar como as pessoas estabelecem o espaço com as outras. O difícil trabalho de encarar intersecções, expressar empatia por posições que, para você, talvez sejam estrangeiras ou difíceis de entender... um verdadeiro mergulho em vulnerabilidades dificultosas.

Michael Roberson

“O homossexual negro é duramente pressionado para conquistar público entre seus irmãos heterossexuais. Mesmo se ele for mais talentoso, acaba inibido pelo silêncio ou pelo consentimento. Foi disso que a raça dependeu ao ser capaz de apagar a homossexualidade da história registrada. A história “escolhida”. Mas as construções sagradas de silêncio são exercícios fúteis de negação. Nós não vamos sumir daqui com nossas questões de sexualidade. Estamos indo para casa. Não basta nos dizer que alguém foi um poeta brilhante, cientista, educador ou rebelde. A quem ele amava? Isso faz diferença. Eu não posso me tornar um homem por inteiro simplesmente com o que me dão de comer: versões diluídas da vida do negro na América. Eu preciso que a verdade de rachar o cu seja dita, assim terei algo puro a emular, um motivo para permanecer leal.” Essex Hemphill

É uma teologia interessante a que envolve a destruição de homens gays negros. Fico me perguntando quando vamos entender a mensagem de amor-próprio e autoaceitação. As lacunas e os espaços que colocamos entre nós parecem devorar nossas almas. Minha crença é que estamos buscando conexão com outras almas para comungar num plano mais significativo, além da mera superfície. Parece haver tantas coisas jogando contra nós. Fomos ensinados que a nossa própria existência não é preciosa, que não vale nada e que o ser supremo e divino a quem servimos nos encara como uma abominação. Fomos teologicamente situados do lado de fora da Imagem de DEUS, a Imago Dei, a Doutrina, e nos disseram que o ato de fazer amor consigo e com os outros é depravado. Então, como poderíamos nos perceber como detentores de valor, seres importantes e significativos cujas vidas vão além do mero físico, que nosso eu espiritual conectado a este universo está nos pedindo e implorando para ser alimentado e que isso só pode vir, principalmente, de nós mesmos, curados por um amor que já existia e era inato dentro de nós? Venho procurando encontrar esse outro há tanto tempo − parece que faz uma eternidade − aqueles muitos que sentem e sangram os mesmos sentimentos, cujas jornadas são preenchidas, e não porque nossas vidas não acabam aos 20 ou 21 ou 30 anos. E assim podemos nos ver vivendo e respirando e explorando e explodindo de maneiras amorosas e que nutrem. Nosso passado não mora no fortuito, e sim no que é destinado, assim como o dia em que João batizou o Cristo, a quem chamam de Jesus. Venho buscando uma limpeza que só pode vir do Espírito Santo, mas não do jeito como fomos cristianizados, e sim pela minha comunhão com deus, limpo de um passado que me assombra mesmo depois de 49 anos nesse contínuo. Parece haver uma ausência de homens que continuaram na luta, que não abandonaram o processo quando as coisas ficaram difíceis e pareciam duras, que têm ocupações políticas, divinas e eróticas que repousam nas profundezas de nossos corpos materiais. Aprendi que a profundidade da minha sensualidade está na ontologia da minha sexualidade atravessada; ela gravou parte do meu subconsciente, que tem uma semelhança impressionante com meu universo. Os homens que lutaram uma boa luta, que tiveram a coragem de olhar na cara do medo e reconhecê-lo, mas mesmo assim se mantêm de pé e lutam por amor, pela vida, pela liberdade de amar, de amar honestamente, sem remorsos, são eles os ancestrais da minha libertação. São eles a minha própria epistemologia pessoal. Eles me ajudaram a definir por mim mesmo que homens não desistem e, sim, dão as caras e fazem o que têm que fazer. Eles criam o nexo entre nossas vidas passadas e futuras para que possamos viver em paz, além de romper com essa noção de depravação do meu amor por homens. Como podemos honrar a nós mesmos quando fomos ensinados que não existe honra para homens que amam outros homens, que nossas vidas foram denegridas e objetificadas através do sexo? Como nos levantamos todos os dias, respiramos, olhamos no espelho e sentimos amor como reflexo de tudo o que é sagrado e perfeito, pois fomos verdadeiramente feitos a partir desse pensamento majestoso, pela mão infinita de deus, através do amor eterno e incondicional de deus? Quando chegamos a esse momento mágico de percepção de que nossa maior ameaça não é uma doença infecciosa pandêmica, e sim a nossa crença em mensagens que não nos servem de nada, senão para destruir nossas mentes, atuar em detrimento de nosso espírito, desvalorizar nossas almas, de modo a nos tornar política, espiritual e coletivamente impotentes? Bem, hoje, neste momento, neste espaço, nesta época, atravessando os céus de ontem até as nuvens que aparecem quando nosso Sol foi encoberto, quando o amanhã só se manifesta em sonhos de raiva, a cura precisa começar. Precisamos estar dispostos, olhar para nós mesmos bem na cara e dar início a esse processo, soltando todas as correntes que nos mantêm presos àquilo que dá a sensação de um eterno abismo de desânimo e uma memória destituída de direitos. O agora é o uivo dos ventos distantes dizendo que todas essas coisas que usamos em automedicação da alma, coisas que deixam marcas indeléveis de dor e miséria, de autodestruição da longevidade de nossos espíritos, precisam ser abandonadas sem volta, pois este é um tempo de mudança universal de paradigmas, uma mudança coletiva rumo à luz, a uma nova consciência, à paz em cooperação e harmonia, e um só amor. Isso está no ar. Vamos agarrar a doce vida de uma vez por todas e devolvê-la ao Universo, pois o amor, a real verdade, sempre esteve aqui, bem na nossa cara, implorando para abrirmos a porta e recebê-lo. Esse é o nosso presente de deus. Axé.

 

 

 

 

idealização Cláudio Bueno & João Simões.
realização Cláudio Bueno, João Simões, Paulo Scharlach, Raquel Blaque, Raphael Daibert, Todd Lanier Lester.
parcerias A Revolta da Lâmpada, Centro de Cidadania LGBT Laura Vermont, Cieja Campo Limpo, Cursinho Popular Transformação, Família Stronger, Free Home University, Intervalo-Escola, O grupo inteiro, Ultra-red.
apoio e agradecimento especial ArtsEverywhere / Musagetes, Lanchonete.org, Bueno family, Ligia Nobre.
residentes Aretha Sadick, Cadu Oliveira, Cláudio Bueno, Daniela Mattos, Danila Bustamante, Ezio Rosa, Félix Pimenta, Jô Gada Away, João Simões, Jota Mombaça, Lee Ann Norman, Mavi Veloso, Michael Roberson, Nube Abe, Paulo Scharlach, Pony Zion, Raphael Daibert, Raquel “Nega” Blaque, Robert Sember, Shawn Van Sluys, Tiago Guiness, Todd Lanier Lester, Yeti Agnew.
participantes Aline Scátola, Armênia “Bolinho” Gomes, Beatriz Matos, Bruno Black, Bruno Mendonça, Caio André, Camila Furchi, Dácio Pinheiro, Daniel Lühmann, Daniel Lima, Dalva Santos, Diane Lima, Eduard Kon Rodrigues, Élida Lima, Élvis Stronger, Filipe “Flip” Couto, Flávio Franzosi, Jean Pierre-Michel, Ju Whacking, Juliana dos Santos, Júlia Ayerbe, Katia Pires Chagas, Laura Daviña, Lucas Matteus, Marcos Ribeiro, Paulo Henrique Rodrigues, Renata Martins, Rodrigo Vianna, Tainá Azeredo, Thiago Carrapatoso, Thiago Hersan, Toni William (Coletivo COLETORES) e todos os dançarinos, colaboradores e visitantes da casa.
fotos Carol Godefroid, Danila Bustamante, Leandro Moraes.

 

Programação
23/8 filme Meu amigo Cláudia, feature film by Dácio Pinheiro. Talk with Aretha Sadick and Duda Babaloo.
25/8 Corpos e Periferias – projeções e falas com Renata Martins, Ezio Rosa e Jota Mombaça.
26/8 gravação de video-performance + conversa com a artista Juliana Santos e sua vó Dita.
27/8 janta #7; mostra Explode! kuir rap; Semana da Visibilidade Lésbica – fala de Camila Furchi; introdução à cultura ball nos eua com Michael Roberson + workshop de waack, vogue e stiletto com Legendary Pony Zion, Félix Pimenta, Danna Lisboa, projeto Diana e convidados.
28/8 Batalha Explode! com Pony Zion, Félix Pimenta, Danna Lisboa, projeto Diana e convidados.
29/8 Trânsito – conversa com Pierre-Michel, Jean; Não vamos obedecer – com Daniel Lima; Afrotranscendence – com Diane Lima.
30/8 Políticas kuir – debate com Cadu Oliveira (Revolta da Lâmpada), Elvis Stronger (Família Stronger), Camila Furchi e Salete Campari (Centro de Cidadania lgbt de São Miguel Paulista), e Elida Lima (Cursinho Popular Transformação e #partidA); exibição de São Paulo em Hi-Fi, do diretor Lufe Stefen.
31/8 Apresentação dos processos de vestircorponú = explosão, com Aretha Sadick e convidados.
1/9 Conversa com Tainá Azeredo (Intervalo-Escola), Michael Roberson (Ultra-red), Eda Luiz (Cieja Campo Limpo), Shawn Van Sluys (Free Home University).

 

 


A residência também organizou batalhas de Vogue e workshops.

Trailer do minidocumentário "Cidade Queer" – Explode! Residency e
Attack! fizeram parte dessa plataforma. A maior parte do documentário
foi gravada durante esses dois eventos.

 

 

 


 

Ataque

A Explode! Residency criou contexto e participou da idealização de uma ball internacional na Praça das Artes, no centro de São Paulo, em setembro de 2016 – como parte da programação do projeto Cidade Queer. Para esse evento, o grupo de trabalho contou com a presença do Legendary Icon Pony Zion e de Michael Roberson, como convidados especiais. Ao longo desse dia de eventos, também aconteceram workshops, palestras e intervenções – conforme listado a seguir.

 


O Legendary Icon Pony Zion durante sua performance no evento Ataque!

 

 

 

Fotos de Leandro Moraes

 

 

idealização Cláudio Bueno, João Simões, Júlia Ayerbe, Laura Daviña, Paulo Scharlach, Raphael Daibert, Thiago Carrapatoso, Todd Lanier Lester, Shawn Van Sluys
concepção artística Aretha Sadick, Cláudio Bueno, Félix Pimenta, João Simões, Júlia Ayerbe, Laura Daviña, Paulo Scharlach, Raphael Daibert, Thiago Carrapatoso, Todd Lanier Lester, Shawn Van Sluys
produção Dalva Santos, Paulo Scharlach, Thiago Carrapatoso
parcerias Praça das Artes, Centro de Cidadania LGBT Arouche, O grupo inteiro
apoio Lanchonete.org, ArtsEverywhere / Musagetes, Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Fundação Theatro Municipal de São Paulo
participantes Ariel Nobre, Ajamu Ikwe-Tyehimba, Aretha Sadick, Beatriz Matos, Bibi Abigail, Bruno Puccinelli, Cadu Oliveira, Claudia CisneyLips, Danna Lisboa, Dani d’Emilia, Darlita Double-Lock, Eduard Kon Rodrigues, Fernanda Rocha, Flip Couto, Félix Pimenta, Jackeline Romio, Júlia Ayerbe, Laura Daviña, Lucas Matteus, Mavi Veloso, Michael Roberson, Marcos Ribeiro, Monstra Errátika (Jota Mombaça), Paulo Henrique Rodrigues, Pato Hebert, Pony Zion, Rodrigo Vianna, T. Angel (frrrkguys), coletivo coletores, Vi Grunvald
fotos Ajamu Ikwe-Tyehimba, Danila Bustamante, Leandro Moraes, Pato Hebert

 

 

 

 

programação
oficinas
Interiores – Claudia CisneyLips
A Ternura Radical em um Corpo Político – Dani d’Emilia
Fúria Kuir – Monstra Errátika (Jota Mombaça)
A Cultura do Ball Norte-Americana – Michael Roberson e Pony Zion
falas
Descolonização do Queer – Monstra Errátika (Jota Mombaça), Bibi Abigail, Vi Grunvald
O Corpo e o Direito à Cidade – T. Angel (frrrkguys), Jackeline Romio, Ariel Nobre (Revolta da Lâmpada)
Território e Memória – Fernanda Rocha (Repep), Bruno Puccinelli
Hiv – Flip Couto, Cadu Oliveira (Revolta da Lâmpada)
Vogue Ball
juradxs Mavi Veloso, Michael Roberson, Paulo Henrique Rodrigues
comentador Eduardo Kon Rodrigues
participação especial Aretha Sadick
vj coletivo coletores
dj Tiago Guiness
intervenções
Laboratório Gráfico Desviante
popup studio com Ajamu Ikwe-Tyehimba
coletivo coletores

 

 

 


 

Explode! Motumbá

A Explode! Platform foi convidada pela equipe curatorial do Sesc Belenzinho e o curador geral João Nascimento, para a curadoria LGBTQIA+ da mostra Motumbá: memórias e existências negras, realizada no Sesc em São Paulo. Nosso recorte incluiu atividades como: TRANSarau, Miniball, performances, espetáculos, dentre outras.

 


Flip Couto durante sua performance "Sangue". A obra traz discussões sobre HIV, homoafetividade negra e dança contemporânea.

 

 

Miniball Motumbá

 

 

 

Fotos de Leandro Moraes

 

 

TRANSarau

A curadoria de Explode! para Motumbá também incluiu o TRANSarau – um evento organizado por estudantes coordenadores e professorxs do Cursinho Popular Transformação, focado em educação e cultura para pessoas transgêneras, travestis e não-binárias em São Paulo. É um espaço de representatividade da população LGBTQIA+ para se manifestar através da performance, dança, bateção de cabelo, microfone aberto e o que mais surgir. Na sexta edição, o evento contou com a participação de mais de 300 pessoas, além de mais de 20 apresentações no palco. O TRANSarau ocupou a Comedoria do Sesc Belenzinho e teve a participação de Danna Lisboa e Liniker Barros, que encerrou a noite com uma performance de viz e violão. Agradecemos a produção feita pela Invisíveis Produções e todo o time coordenado por Carmen Garcia, Carolina Munis, Élida Lima, João Pedro Innecco, Raísa Martins, Patrícia Borges, Dannyele Cavalcanti, Preto Teo e Lua Lucas – bem como cada uma das apresentações maravilhosas realizadas no palco.

 

 

 

Fotos de Bernardo Mota e Luana Carvalho

Para saber mais, visite a página do TRANSarau no Facebook: Transarau

 

 

Encontros, workshops e performances

 

 

 

Fotos de Cláudio Bueno, João Simões and Renata Martins

 

Agradecimentos para Salete dos Anjos, Regina Marques, Natália Nolli, Helena Bartholomeu, Cátia Leandro, Simone Wicca, Lilian Sales, Renata Martins, Maitê Freitas e toda a equipe de produção.

 

 

 


 

Explode! Rainbow Riots

 

 

 

Explode! Rainbow Riots foi um processo vivenciado entre a Explode! Platform, o Sesc SP, Umlilo & Stash Crew e artistas convidados, durante abril e maio de 2017, em Sao Paulo. Este encontro instaurou espaços de experimentação, coragem, invenção, expressões de sexualidade e modos de vida. Procurou provocar dessa maneira reflexões sobre um sistema que regula e oprime corpos, alteridades, códigos, condutas, subjetividades e pessoas. Diante disso, esse período buscou a multiplicação de possibilidades de existência em cidades como São Paulo, Joanesburgo e também em todo o mundo. O projeto realizou dois shows do grupo Umlilo & Stash Crew no Sesc Belenzinho (com a participação especial da drag queen e rapper Gloria Groove) e no Sesc Itaquera. Também foi realizado um workshop imersivo de 5 dias abordando questões como: performance, música, ativismo queer, moda e a possibilidade de se reinventar além das fronteiras da normatividade. Fez parte desse processo uma caminhada até o túmulo da ativista LGBTQIA+ Andrea de Mayo – uma mulher travesti que teve seu nome social retificado em seu túmulo, dezesseis anos após seu falecimento (como você poderá ler mais abaixo). Este projeto foi pensado como um desejo de continuidade de fortalecer um diálogo transacional sobre as artes e a comunidade LGBTQIA+ – especialmente daqueles países reconhecidos, embora de forma imprecisa, como "sul global". Portanto, como cenas tão diferentes como a sul-africana e a brasileira podem formular novas questões, ações, processos, modos de pensar, sensibilidades e revoluções? Como criar um espaço de aprendizado onde nós possamos ir fundo em nossas questões, vivendo por cinco dias juntos em um tempo e espaço de maior intimidade.

 

 

 

 

Caminhada “A Revolta do Arco-íris”

“Hamba Kahle Mkhonto
Mkhonto
Mkhonto we Sizwe
Hamba Kahle Mkhonto
Mkhonto
Mkhonto we Sizwe” Hamba Kahle Mkhonto we Sizwe Tradução livre para Hamba Kahle Mkhonto we Sizwe – em Inglês: Go well Spear of the Nation. Em Português: Siga bem, Lança da Nação. Essa foi a música cantada no funeral de Nelson Mandela, e se refere a um cântico de luta em homenagem ao grupo Spear of the Nation, movimento sul-africano formado em 1961 e que lutou contra o regime do Apartheid no país até no ano de 1990. O grupo cantou essa música durante a homenagem para Andréa de Mayo.

Como parte da oficina “A Revolta do Arco-íris/Rainbow Riots”A Revolta do Arco-írisOficina que aconteceu entre os dias 1 e 5 de maio de 2017, durante a mostra De|generadas, no Sesc Santana, em São Paulo. Essa caminhada, que aconteceu no dia 2 de maio, contou com o apoio da plataforma Lanchonete.org, liderada por Raphael Daibert e Todd Lester. O grupo saiu do Teatro Cemitério de Automóveis, parou no Conjunto Santos Dumont (conhecido também como Treme Treme do Bixiga, na rua Paim), e seguiu até o Cemitério da Consolação., liderada pelo grupo sul-africano Umlilo & Stash Crew, caminhamos por ruas do centro da cidade de São Paulo, até o Cemitério da Consolação, onde encontra-se o jazigo de Andréa de Mayo, ativista dos direitos de travestis e transexuais. Morta em 2000 por complicações posteriores a uma cirurgia para retirada de silicone industrial de seu corpo, a ativista foi impedida de ser sepultada no mesmo jazigo de sua família, sendo então acolhida em outro espaço, cedido pelo amigo e guia espiritual Walter Alegrio – ou Pai Walter de Logun Edé. Até 2016, somente seu nome de registro constava em sua lápide, quando, por iniciativa do Serviço Funerário do Município de São Paulo, houve a retificação e o acréscimo da placaSobre a retificação do nome e outras ações em torno da lápide de Andrea de Mayo, leia também: “A vez de Andrea, Sobre o direito de morrer como travesti”, por Armando Antenore, na revista Piauí: http://piaui.folha.uol.com.br/materia/vez-de-andrea/ e “Ossanha de Mayo”, ato performativo realizado pelo Coletivo Viadas, em 2016, disponível no portal Democratize:  http://democratizemidia.com.br/16-anos-apos-seu-falecimento-transexual-recebe-placa-com-nome-social-em-seu-tumulo. doado pelo professor e arquiteto Renato Cymbalista, que passou a apresentar seu nome social.

Se nas últimas décadas, Andréa lutou para que as populações LGBTQ+ tivessem seus direitos garantidos, assim como o direito de não terem seus corpos violados, é notória a necessidade de continuidade dessa luta – haja vista a estranheza e os comentários agressivos ouvidos por esse grupo durante o trajeto.

Essas pessoas, maquiadas, travestidas, estranhas, afeminadas, masculinizadas, não-binárias, queers, pretas, brancas, amarelas, enviadecidas, sapatões etc, andaram juntas pelas ruas, a despeito de um sistema que visa normatizar a conduta de corpos em todas as esferas sociais. Mas caminharam também, em respeito e celebração a pessoas como Andréa de Mayo, que participaram ativamente da abertura, fortalecimento e multiplicação desses modos de existir outros. Num país recordista em assassinatos e violência de LGBTs, ainda é preciso lembrar e cantar por pessoas como Andréa, bem como por todxs xs travestis e transexuais brasileirxs e do mundo.

Umzabalazo!Umzabalazo em zulu significa luta, greve, revolução! O videoclipe da música de Umlilo revisita lugares onde ocorreram revoltas estudantis em Joanesburgo e critica o ativismo exclusivamente online.

 

 

 

 

Veja abaixo algumas imagens dos shows ocorridos durante a programação do Música Preta no Sesc Belenzinho e no Sesc Itaquera:

 

 

Fotos de Carol Godefroid e Nu Abe

 

 

 


 

Explode! Tiros

uma série de entrevistas curtas sobre questões e intersecções que permeiam Explode! como: artes, raça, gênero, classe, pedagogia, justiça social, singularidades e afetos.

 

 

Vogue no Brasil: intercâmbios e apropriações
Entrevista com Felix Pimenta


Cena queer – uma perspectiva sul-africana
Entrevista com Umlilo & Stash Crew

 

 

 

 

Vogue no Brasil: intercâmbios e
apropriações
– Entrevista com
Felix Pimenta


Explode! Residency: Félix, são muitos anos de diferença entre o surgimento do vogue nos Estados Unidos e o aparecimento dessa cena no Brasil. Como se deu essa chegada do vogue no nosso país? Como as pessoas aqui entraram em contato com o vogue pela primeira vez?

Félix Pimenta: Aqui no Brasil, a dança vogue começou a chegar por intermédio de outras danças urbanas e por profissionais que tinham acesso às informações; que começaram a ir principalmente para Nova York e trazer essas referências. Então, ao mesmo tempo que muitas danças urbanas foram descobertas no começo dos anos 2000, veio essa referência do vogue e a descoberta de que aquela dança que existia no clipe da Madonna era uma dança urbana, que tinha toda uma história por trás. Ela veio com outras, principalmente o waacking, que é do início junto com o vogue, unificado. Tinha certa confusão entre os dois estilos, o que depois se resolveu e eles começaram a ser estudados separadamente. Antes, contudo, existia a referência dos vídeos e algumas pessoas que tinham acesso às informações, mas que não repassavam… algumas pessoas que são clubbers ou eram clubbers e que tinham acesso. Repassar e expandir um pouco mais sobre o vogue foi realmente com a entrada das danças urbanas, o que possibilitou que ele se espalhasse e que viessem profissionais.

E!R: A cena aconteceu primeiro em alguma cidade específica? Como essa cena se espalhou pelo Brasil?

FP: A primeira pessoa com referência do vogue mesmo, brasileiro, foi o André RockmasterAndré Rockmaster é professor e coreógrafo de danças urbanas, graduado em educação física e pós-graduado em fisiologia do esporte. Fundador da Rockmaster Party, Cia. Vertente Única e Desonestas Crew.. E a Tati SanchisTati Sanchis é coreógrafa e professora de dança. Formada em educação física e dona da rede de escolas Casa da Dança Tati Sanchis. também, porque eles faziam esse intercâmbio com Nova York. Mas foi o André, que é daqui de São Paulo, que trouxe essa referência. O primeiro professor de vogue que veio ao Brasil foi o Archie BurnettArchie Burnett é avô da House of Ninja, escolhido pessoalmente por Willi Ninja para integrar a house. É dançarino de House e professor de vogue, waacking e Hustle., para o Festival Internacional de Dança Hip Hop de CuritibaO festival, que acontece desde 2002, já reuniu mais de 20 mil bailarinos e mais de uma centena de atrações internacionais. Disponível em: http://fih2.com.br/novo. Acesso em: 20 fev. 2017. em 2008 e dirigiu o primeiro curso específico de vogue. De lá, começou a se espalhar e a galera foi atrás de informações. Esse festival promove, assim como outros, um encontro entre dançarinos de vários estados que começaram a estudar a dança. Tem também a Paulinha Zaidan Paula Zaidan é coreógrafa, professora de vogue e stiletto e especialista em danças urbanas desde 2004. É integrante do grupo de dança Lipstick., que em 2008 (se não me engano) morou nos Estados Unidos e deu continuidade ao trabalho com o vogue em Belo Horizonte, quando retornou. Então tem Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte e o Sul também, porém mais fraco, mas não tenho como dizer com certeza se em alguns outros lugares ou outras cidades a galera já treinava ou não. Tem isso, de treinar vogue, estudar vogue, repassar os conhecimentos e criar uma cena.

E!R: Aproveitando um pouco essa questão da cena nacional e dessas pessoas que fizeram intercâmbio, gostaria de saber um pouco sobre os artistas estrangeiros que vieram para cá, que são convidados hoje porque existe uma cena. Como ela se mobiliza em relação a isso?

FP: A cena acontece porque consegue reunir essa galera que vem de vários lugares, e nós aqui [em São Paulo] tínhamos essa referência e possibilidade de conseguir trazer alguns professores de fora [do Brasil]. E a galera aproveitava essas chances de poder esclarecer um pouquinho mais as informações. Como o Meeting Hip Hop FestivalMeeting Hip Hop School Festival é um festival itinerante de danças urbanas que acontece no interior de São Paulo há 12 anos e reúne artistas nacionais e internacionais., que acontece no interior de São Paulo e que também foi um dos eventos que teve (e tem) a possibilidade de trazer professores para cá. No cenário das danças urbanas funciona assim: nesses intercâmbios, você aproveita os workshops, consegue levar um pouquinho de informação e reunir os grupos e também organizar outro evento e chamar outros professores. E os professores que já conseguem ir para fora fazer esses intercâmbios também viajam dentro do Brasil para disseminar um pouco mais a cultura, o vogue e outras danças urbanas, como waacking, hip-hop. E assim o movimento vai se espalhando.

E!R: Nessa expansão que o vogue teve pelo país, você acha que a cultura envolvida nessa modalidade de dança urbana se modificou ou permanece fiel às origens daquele referencial dos anos 2000, quando o estilo se iniciava no país? Se existem essas adaptações, como você avalia isso?

FP: Há um detalhe muito importante para analisar, que é como as danças urbanas se tornaram populares e como começaram a ficar em evidência. O mainstream, o meio comercial, tem muito poder sobre isso. O vogue ficou mais conhecido no final dos anos 1980, começo dos anos 1990 e depois continuou no underground e se espalhou um pouco até que voltou nos anos 2000, principalmente por causa dos programas de tv e dos artistas. O America’s Best Dance CrewAmerica’s Best Dance Crew é uma série de dança que conta com a participação de grupos (crews) de dançarinos de rua. É apresentado por Randy Jackson, jurado do American Idol. Um dos destaques do programa foi o grupo Vogue Evolution, primeiro grupo de dança da tv americana em que todos os integrantes são LGBTQIAs assumidos, tendo como destaques Pony Zion e Leyomi Maldonado. é um exemplo disso: depois que o Vogue Evolution começou a participar, a galera que até então não sabia o que estava rolando na cena drag ball e com o voguing voltou a olhar para a cena. O Vogue Evolution veio mostrando outra forma, totalmente diferente para aqueles que tiveram acesso ao Paris is BurningParis is Burning é um documentário norte-americano dirigido por Jennie Livingstone. O filme retrata a cena da ball culture de Nova York e as comunidades lgbtq negras e latinas que a formavam, em meados dos anos 1980., ou ao vogue que a Madonna colocou no clipe e na sua turnê. A partir disso, nós começamos a ir atrás dessas informações, e a popularização do YouTube também ajudou muito, porque chegavam vídeos relacionados: ao pesquisar o clipe Vogue, da Madonna, apareciam sugestões como Paris is Burning, que eu assisti naquela época, além de outros vídeos que deram mais acesso. Foi principalmente o YouTube, os programas de tv, o acesso maior às redes que ajudaram nessa popularização.

Fora isso, tinha os intercâmbios, que modificaram a forma como a dança era realizada, que modificaram qualquer outra dança urbana e a própria cultura hip-hop, que surgiu com a questão do acesso, do privilégio à informação. Então, as pessoas que tinham poder aquisitivo maior tinham mais acesso e podiam ir aos Estados Unidos para se reciclar, ter aulas, ou mesmo só fazer alguns cursos e voltar. Muitas outras, porém, não tinham essas mesmas ferramentas. No caso do vogue, principalmente, que é uma cultura que se manteve e evoluiu no meio underground, na cena drag ball, pela minoria, foi descoberto pela galera que tem acesso, que não é das minorias, e que foi quem levou de lá para outros lugares. Então, já não começou nas minorias, essa galera não tinha nem acesso a essas informações. Muitas pessoas ainda não sabem o que é vogue, mas têm uma vida muito parecida, têm um comportamento, uma vivência e o corpo muito parecidos com os de lá. Só que quem trouxe a dança para cá tinha outra estrutura, então a vivência já é de outra forma, essa relação já é muito diferente. Se a gente coloca uma das questões importantes do vogue, que é a questão lgbt, que é a questão principalmente das mulheres trans, das drags. Não foi esse público que trouxe, foi o público heterossexual mesmo, é importante analisar por esse recorte, porque ele já chegou pelo meio de aulas em academias ou workshops, e não pela vivência, pelos clubes, nem por uma cena drag ball ou mesmo pelas ballsO ball é o principal evento da cultura ballroom. Nele se reúnem representantes das houses e dançarinos de vogue que batalham por suas houses e por suas histórias. É um momento de catarse, no qual vida e morte são apresentadas por meio de dança, performance, atitude e figurino. Em geral as balls premiam seus participantes e servem como local de visibilidade e apresentação para aqueles que ainda não estão inseridos nas houses. que eram feitas (as competições direcionadas para o vogue) e que agora começam a ser entendidas e realizadas aqui no Brasil.

E!R: Você me disse que o vogue começou a surgir no Brasil no início dos anos 2000 e que em 2008 vieram os primeiros professores internacionais, como o Archie Burnett. Quando começaram as primeiras balls e batalhas no Brasil, e como estão se desenvolvendo? Elas estão transformando de alguma forma essa cena que se iniciou num contexto branco, heterossexual e com alto poder aquisitivo?

FP: A gente já tem essa referência de como o vogue [no Brasil] foi formado. Esse caminho de a dança chegar até as minorias está ocorrendo agora, e está se discutindo sobre isso, estamos analisando essas questões, e começando a circular em outros espaços. A partir do momento em que a galera se desprendeu desse lugar de fazer aulas, buscou como realizar uma ball, ver vídeos e ter mais contato com a galera de fora e que realmente faz parte dessa cultura, é que começou a se formar mesmo essa cena, que não é só batalha, não é só aula. Então desde que se começou a treinar e a compartilhar informação, a entender o que são as categorias, as diferenças entre cada categoria ou os gêneros de vogue, é que iniciou um movimento maior de batalhas. Mesmo que fosse somente “brincar de batalhas”, fora das estruturas de balls. E começou também o movimento de festas com esse tema.

Surgiu aí um pouco mais de espaço para o vogue, que não veio do hip-hop porque ele não conseguiu atender a essa demanda – o movimento não entendeu também e não deu espaço. Quem começou no vogue conheceu a galera dos clubes, que também queria fazer essas festas, que estava começando a discutir questões de gênero, sabia o que era Paris is Burning e o que era mais o menos o vogue numa visão teórica. E foi uma junção perfeita, a dos clubes com as festas, que se iniciaram com as performances, depois as batalhas e atualmente, nos últimos dois anos, as balls direcionadas ao vogue. Aqui a gente tentou, com a ExtravaganzaExtravaganza é uma festa itinerante entre São Paulo e Berlim, que realizou em 2016 algumas performances com seu coletivo Vogue Extravaganza Voguing Crew, do qual fazia parte Félix Pimenta., mostrar de uma maneira diferente; e as meninas de Belo Horizonte com a DengueDengue A Festa! é um evento em Belo Horizonte criado por Guilherme Morais, fundador da plataforma cultural This Is Not, que realiza batalhas de vogue em cada uma de suas edições., que é uma festa com batalhas e duelos de vogue em todas as edições; elas também realizam o BH Vogue FeverBH Vogue Fever é um encontro internacional de dançarinos de vogue que acontece em Belo Horizonte. São realizados workshops e aulas com convidados internacionais e uma ball com batalhas de vogue. É organizado pela House of Afrodite (Trio Lipstick + BH is Voguing)., e aí veio a ball do Rio, de Brasília, de São Paulo... E nesse momento a galera começou a entender mesmo e a ter coragem e estrutura para organizar as balls. É uma junção de tudo, desde ter mais informações, ter estrutura, ter discurso e ter um público-alvo que mantenha tudo isso.

Começou a ter uma diferença entre a parte das academias, com aulas, workshops e cursos regulares e quem faz e participa realmente da cena vogue, desde o treinamento até a organização de miniballs, batalhas ou uma grande ball internacional e que consegue trazer outras pessoas. Essa relação do acesso aos artistas de fora se manifesta nessas relações, já que ela acontece principalmente nas academias, onde esse acesso é mais fácil; quem pertence às minorias não tem esse mesmo privilégio ainda, mesmo nas balls. Ainda é necessário que se tenha dinheiro, um investimento para poder organizar, alugar um espaço, para trazer alguém de fora. É necessário fazer parcerias, não [adianta] só vontade de organizar. A gente pode organizar umas balls de maneira simples, mas também quero fazer uma internacional, tenho que trazer essas referências, as pessoas que fazem parte dessa cultura de lá. Mas isso não é tão simples assim.

E!R: Entre as danças urbanas, poucas são tão importantes e vitais quanto o vogue para a comunidade LGBTQIA+ negra, principalmente, e latina (quando você fala da realidade estadunidense). E o waacking também entra nessa categoria. Como você enxerga essa questão? Acredita que agora, com essa nova mobilização, essa nova vivência e com esses corpos (que como você mesmo afirmou são parecidos com os da cena original), as pessoas podem se empoderar nas questões LGBTQIA+ e também da população negra?

FP: Sim, tanto que existe esse reconhecimento principalmente no que está relacionado à cultura hip-hop e às danças urbanas, que tem a ver com o discurso e o lugar, como as pessoas vivem. Existe um reconhecimento nesse discurso, na imagem, no corpo – quando se vê aquele corpo muito parecido, a forma como esse corpo se movimenta –, da expressão, da vivência. Tudo isso ajuda as pessoas a se reconhecerem nessa forma de expressão. Mesmo no hip-hop, e se nós pegarmos outras culturas fora do hip-hop de diversos lugares do mundo, a galera vai se identificar, esse público vai se reconhecer.

Trazendo para o vogue, ele tem essa ligação grande com as questões de gênero, o que ajudou muito na expansão e no estudo sobre o vogue. A galera vivendo de uma forma bem diferente por aqui enxerga semelhança com a forma como essa galera LGBTQIA+ de lá vive, como as drags, os gays, os trans, os negros e os latinos vivem lá. Tem todo esse reconhecimento, não acontece só no Brasil. Tem todos esses outros movimentos da galera latina, existe essa importância de se reconhecer latino. O fato de uma das principais e mais antigas housesAs houses, também chamadas de famílias, são grupos LGBTQIA+s reunidos sob a orientação de uma house mother ou um house father. Na comunidade ballroom, as houses se organizam por estruturas de parentesco, configuradas socialmente (e não biologicamente), nas quais mães e pais aparecem como figuras de autoridade, orientação e cuidado, além de manterem a reputação das houses. Seus membros assumem como sobrenome o nome de suas houses (Ninja, Xtravaganza, LaBeija, Garcon, Balenciaga, Mugler etc.)., a XtravaganzaHouse of Xtravaganza é uma das mais conhecidas e difundidas houses de Nova York. Fundada em 1982, é conhecida pela atuação na cena ballroom e pela influência em áreas como dança, música, artes visuais, vida noturna, moda e ativismo comunitário. Seu fundador é Hector Valle. Disponível em: www.facebook.com/HouseOfXtravaganza/?fref=ts. Acesso em: 21 fev. 2017., ser formada por latinos tem total importância para toda essa comunidade se reconhecer como latina. Tem um discurso forte aí, tem esse reconhecimento.

Além disso, tem a questão da movimentação. Muitas pessoas não usam isso, mas eu gosto de usar essa referência do movimento afrodiaspórico. Sem querer, sem que as pessoas saibam o que é exatamente a diáspora africana, o que significa afrodiaspórico, elas estão fazendo uma coisa bem parecida. É se reconhecer, executar o movimento de um corpo idêntico ou bem parecido sem ter tido contato anterior; e conseguir executar e se reconhecer muito bem nisso. Para mim é muito relevante esse fator do movimento afrodiaspórico, que está no vogue, que vem do hip-hop, e que também está nas outras danças urbanas norte-americanas e que são reconhecidas aqui no Brasil e em outros lugares.

O movimento afrodiaspórico e as questões de gênero são fatores muito fortes a meu ver, e fazem com que as pessoas se reconheçam. Mas obviamente haverá mudanças, porque cada país vive de uma forma diferente e tem experiências diferentes. Então, mesmo que minha religião seja igual à de lá, ou que seja a mesma, a minha representação e a forma de falar, por exemplo, são diferentes; a minha forma de me movimentar e de me expressar são diferentes das de lá. Essa modificação é automática quando ela chega no meu corpo. E tem uma coisa da qual eles [os estadunidenses da cena vogue] gostam também e que faz toda a diferença. Não deixa igual e não fica tudo quadrado: como cada povo se utiliza também dessa cultura ou se fortalece de alguma forma e consegue acrescentar também a sua maneira.

E!R: As houses têm papel fundamental como criadoras e fomentadoras dessa dança urbana, além de seu papel social nas comunidades lgbtq nos Estados Unidos. Quando vieram ao Brasil, o Legendary Icon Pony Zion convidou você e Eduard Kon para formarem e serem pai e mãe, respectivamente, da House of Zion, dando continuidade ao que as houses norte-americanas fazem em seu país de origem. Além disso, já existem outras houses pelo país, com características específicas conforme as necessidades locais. Como você vê o papel das houses no Brasil e como imagina o funcionamento da House of Zion?

FP: Sobre a questão das houses, a gente faz essa ligação com o começo da cena ball aqui no Brasil, que tem a ver com o reconhecimento dessa galera. Acontece de uma maneira diferente, mas tem relação com a ideia de crewCrew é um termo comumente utilizado em grupos de dançarinos de danças urbanas. Originário do inglês significa grupo de pessoas que trabalham ou atuam em uma área comum, estruturados em uma organização hierárquica. no break, no hip-hop e nos outros grupos, que é essa vivência muito próxima. É se reconhecer, se reconhecer como família porque você se reconhece no outro, está passando pelas mesmas coisas, vivem praticamente juntos e têm ideias bem parecidas. Essa referência no hip-hop e no vogue é muito parecida. O que no vogue é muito diferente e remete ao começo das houses de lá é exatamente a forma como as pessoas viviam, em lugares de total exclusão; as pessoas se juntaram sem ter nada e se fortaleceram a partir dessa união. Aqui também, mas numa estrutura totalmente diferente, ainda que com certas dificuldades, inclusive em relação às questões históricas do mundo de hoje e do que acontecia na década de 1960. Uma galera acaba se juntando por causa do intercâmbio entre os estados, em eventos que as pessoas se matam para ir. Ali criam conexão e ficam um tempo trocando. Existe esse reconhecimento, essa conexão, que muitas vezes não é com a galera próxima, da mesma cidade, mas sim com a de outros estados. Por outro lado, é muito diferente de uma galera do Rio, onde tem a House of KínisiHouse of Kínisi é um coletivo cujo intuito é difundir a cultura das drag balls, através da dança vogue, no Brasil. Disponível em: www.facebook.com/houseofkinisi. Acesso em: 21 fev. 2017. e a House of CaZulHouse of CaZul é um grupo de arte voltado à dança vogue. Em suas concepções coreográficas usa diversas outras danças, linguagens e estudos. Disponível em: www.facebook.com/houseofcazul. Acesso em: 21 fev. 201., que são formadas pela galera da mesma cidade. Eles têm um contato muito mais fácil para se reunir, dormir junto, ir para os eventos todos juntos, do que outras formações que vieram agora de fora, como deve acontecer com a House of Zion.

Como se reunir, criar os pontos com uma galera que está no Sul, com uma galera que está em São Paulo, com uma galera de Belo Horizonte? É um pouco diferente. Algumas meninas de BH têm uma vivência muito mais forte, elas se veem com mais frequência, é mais fácil a conexão. Existe outra forma de as houses acontecerem aqui, que é se reunindo esporadicamente, em algum evento, tentando se comunicar da melhor maneira possível e pensando em organizar ações, expandir e passar informações, cada um à sua maneira. A questão hoje é que o Brasil está sendo bem visado por algumas pessoas de fora: já que estamos fazendo o que eles fazem lá, eles vêm pra cá, ensinam como fazer, falam como respeitar essa cultura e também como se formar essas houses oficialmente conhecidas e as não oficiais, ou kiki housesKiki é a nova geração da cena de ballroom nova-iorquina, onde tanto a dança é poderosa quanto as questões são urgentes. A cena kiki é onde as jovens LGBTQIA+s negras e latinas de Nova York dançam e competem, como seus pais e mães fizeram na cena de ballroom do Harlem nos anos de 1920 e 1930. Elxs dão formas semelhantes às competidoras de Paris is Burning; eles dividem preocupações semelhantes com realismo dentro e fora da pista de dança. Como as crianças lendárias dos 1980, a nova geração também se organiza em Houses, agrupamentos que reúnem numerosas funções como prover uma comunidade, um modelo de família alternativa e amigos para performa junto. As LGBTQIA+ pretas e latinas muitas vezes encaram questões como falta de moradia, homofobia e transfobia, HIV e aids e violência policial…em face de tudo isso, não é para menos que as menines da cena kiki queiram dançar. Mas o que eles fazem brilhantemente também é se defender. A cena kiki é realmente um sistema complexo de apoio e um movimento por mudança.. Fonte: i-D magazine: https://i-d.vice.com/en_gb/article/kiki-the-new-political-youth-vogue-movement, como criar esse comportamento em balls oficiais, se você é 007007 é o dançarino de vogue que não pertence a nenhuma casa e participa das balls à espera de ser convidado para uma delas., se você representa a house oficial ou uma kiki house etc. Tem toda essa demanda que a gente está tentando entender, e a galera precisa tomar cuidado também para não ser guiado só por nomes; para que, quando uma house de renome vier escolher alguns nomes para sua house, não se exclua quem poderia fazer parte disso e opte só por nomes que são reconhecidos; para que não se façam formações nem criem nichos e se separe mais a galera, e que se impossibilite o acesso de quem precisa dessa informação. O momento agora é de não segurar essa informação e permitir que o maior número de pessoas tenha acesso a ela. Tentar ao máximo popularizar o vogue. O mínimo que tento fazer é popularizar o vogue, e esse é o conceito que vou tentar levar para a Zion. Eu e o Kon conversamos um pouco sobre algumas pessoas que têm a ver com o discurso, que podem ser consideradas da House of Zion. Foi assim também, a House of Zion estava tecnicamente parada e o Pony não a movimentava. Ele veio para cá [Explode! Residency], se emocionou com o evento, com as balls da Explode! Residency e do Ataque Queer! e decidiu, depois de toda essa vivência aqui, colocar a gente na linha de frente para direcionar e colocar em atividade a Zion aqui no Brasil. E eu tenho essa ideia mesmo, de popularizar e chamar as pessoas que tenham um discurso legal e bem próximo e que tenham ideias parecidas, para que seja uma house com pé no chão.

E!R: Gostaria de falar algo mais sobre o vogue na cena brasileira, algo que considera importante ser lembrado?

FP: É importante retomar a questão dos intercâmbios e das apropriações. Para qual público o vogue está chegando? O vogue está se apropriando de quem? Isso tem a ver também com o vogue estar sendo estudado, virar referência em TCCs, monografias e afins. É necessário tomar cuidado, não só no Brasil, mas no mundo todo: para quem o vogue está sendo direcionado e compartilhado, e para quem não está? Porque, até então, vejo o vogue chegando em alguns lugares apenas para um público que é muito privilegiado. E a parte do público que não tem esses privilégios? Tem que se pensar em formas de popularizar mesmo, de facilitar o acesso e as informações, de dar poder para que algumas pessoas possam ter acesso a tudo isso, para que possam se empoderar dessa dança. Como a gente faz para empoderar as pessoas com todos esses instrumentos? É muito fácil para uma galera das academias ter todo esse reconhecimento e acesso a essas informações, e isso ficar só nesse segmento. Estudar vogue porque agora é o que está sendo reconhecido, porque está na moda. Um problema da moda é esse. Escutei esses dias a frase: “O vogue é bem 2016”. Não é só isso, não é só uma moda, vai muito além disso. Ele só existe até hoje porque a galera foi resistente e foi bem dura também. Houve brigas. Foram várias formas de manter essa cultura viva até hoje. Independentemente de estar na moda ou não, essa cultura vai continuar. Agora, como as pessoas vão trabalhar todas essas informações e como essas informações vão até quem realmente importa? A galera comercial vai explorar essa cultura até dizer “Chega, vamos parar, qual é a próxima?”. Eu já vi isso acontecer: leva-se para o estúdio, passa um ano e esquece, não dá continuidade. Tem que ser levado para mais pessoas e para quem realmente vai dar continuidade à cena – menos para o lado comercial e mais para o underground. E ter cuidado, também, para não embranquecer o vogue, que é uma das questões mais tensas, a da apropriação cultural. Ela acontece de maneira muito sutil: primeiro pela estrutura capitalista, que dá prioridade apenas para algumas pessoas e faz com que a apropriação aconteça de maneira suave, e quando isso é questionado, o teor da questão é visto como agressão. É um problema que precisa sempre ser debatido, além da inclusão do vogue. Como tornar o vogue acessível a um número maior de pessoas? É a questão que deixo para todo mundo, e é importante sempre pensar nisso.

 

 


 

 

 

Cena queer – uma perspectiva sul-africana
Entrevista com Umlilo & Stash Crew

 

 

 

UMLILO é uma diva do kwaai da África do Sul. A artista gender bender multiplataforma e produtora do som autoral conhecido como "kwaai do futuro" explora e tensiona os limites da música eletrônica alt-pop na África do Sul contemporânea. Também tem sido assunto constante na comunidade internacional de música online. "Reciprocity”, seu terceiro single e videoclipe foi exibido no Brasil na mostra Explode! Kuir vídeo. Em 2017, a convite da plataforma Explode! e do Sesc SP, veio ao Brasil com o turnê Rainbow Riots, onde tocou com Gloria Groove e tocou, em Joanesburgo junto com Mikky Blanco. Foto de Carol Godefroid.

 

Explode!: Como você entende a questão do queer a partir da perspectiva e experiência sul-africana? Quais os desafios, e também potencialidades, dessa cena, dados os aspectos da tradição e da política de seu país?

Umlilo: Na África do Sul, a discussão sobre o queer tem acontecido a pelo menos duas décadas desde que a Constituição foi elaborada em 1994 [a primeira após o fim do regime de Apartheid]. A Constituição sul-africana reconhece o casamento entre pessoas do mesmo sexo e a lei é destinada a proteger todos da discriminação. No entanto, na vida prática, essa ainda é uma questão difícil de se discutir porque a homofobia e a transfobia ainda existem em um nível muito brutal. O assassinato e violação das pessoas queer, especialmente mulheres lésbicas é uma grande questão em nosso país, então o desafio ainda é enorme. Enquanto as pessoas são protegidas pela lei, na prática nós ainda vemos pessoas não serem punidas por crimes de estupro e assassinato; a lei não nos protege, especialmente quando falamos de jovens e queers que são pobres.

E!: Como a experiência em São Paulo influenciou em suas lutas, questões e poéticas como artistas? De que maneira podemos apontar uma diferença em relação ao diálogo transnacional e global?

U: A experiência em São Paulo realmente nos inspirou a reforçar nossos laços com nossas irmãs queers do Brazil. Nós criamos grandes conexões, relacionamentos duradouros e o mais importante, nós iniciamos uma conversa de como usar a arte como promotora de ativismo e visão do coletivo como em países do sul global. A arte desempenha um papel poderoso em nos fazer perceber nossas lutas, tornando-nos capazes de nos comunicarmos e nos conectarmos. Nós realizamos alguns workshops onde nós exploramos o corpo, nosso trauma coletivo como pessoas na periferia da sociedade e ficamos deslumbradas com o acolhimento caloroso de São Paulo e a vontade de se envolver de coração aberto. Nós voltamos inspirados para a África do Sul com a ideia de que nossa comunidade queer deve se unir e se alimentar desse tipo de engajamento que nós experenciamos em São Paulo. A revolução queer é a revolução da inclusão, do pensamento crítico, do amor e da colaboração e nós esperamos que esse espírito possa criar uma grande rede global pela mudança.

E!: Como as intersecções entre raça e gênero são vividas e tensionadas no contexto sul-africano?

U: Raça e gênero são palavras-chaves poderosas na África do Sul e fortemente discutidas em nosso país. Com o legado do Apartheid e o crescimento da agenda capitalista, nossas questões em torno de raça e gênero foram agravadas e as desigualdades do passado permanecem. Há muito progresso no que diz respeito às tentativas de resolver esses problemas, mas ainda há muito a ser feito. A coisa interessante sobre a comunidade queer é que nós estamos começando a nos engajar com essas intersecções. E buscando nos certificar de que nossas lutas são pensadas dentro de uma estratégia multi-dimensional, que foca na equidade de todos e não apenas para um grupo de pessoas. Nós estamos dedicadas em garantir que nós iremos viver num futuro onde essas questões não tenham o mesmo peso de hoje.

E!: Podemos afirmar que políticas como a Rainbow Nation, implementadas por Nelson Mandela, impactaram nesse debate?

U: Sim, definitivamente. A Rainbow Nation foi uma campanha necessária durante os anos 1990 para tentar unir os sul-africanos depois de um histórico de segregação. Enquanto eu penso que isso funcionou até certo ponto, depois de 20 anos de democracia não há muita mudança em nossa sociedade. Nós acabamos desiludidos com esse conceito porque líderes como Nelson Mandela e sua visão da Rainbow Nation ampliou a lacuna de desigualdade que favoreceu a branquitude. E somente agora começamos a usar as perguntas certas sobre privilégio branco, desigualdade, reforma econômica e social, redistribuição de terras, etc, etc.

E!: Umzabalazo, no sentido de luta e revolução, tem uma forte conexão com as questões atuais que o Brasil e a África do Sul vivem em paralelo – como você mesmo vivenciou a greve geral no dia de seu show. Nós todos estamos lidando com: corrupção explícita e autoritarismo de nossos governos; sérios problemas em relação à educação, à saúde, à cultura, etc.; violação de direitos e corpos de mulheres, transexuais e travestis, queers e grupos LGBTQIA+. Poderia compartilhar conosco alguns aspectos do processo criativo dessa música e videoclipe como foco especial no contexto sócio-político?

U: Eu acredito que Umzabalazo simboliza uma luta que está muito próxima a meu coração. A canção é a última que foi lançada do meu EP Aluta o qual lida com muitas questões sociais em diferentes perspectivas. Umzabalazo é uma música sobre colonialismo, sobre revolução e os efeitos pós-democracia. Nas questões mais recentes entre Brasil e África do Sul, nós temos descoberto que nossos libertadores se tornaram nossos opressores, e se utilizam do mesmo sistema para roubar do povo e explorar seu poder. Umzabalazo é uma canção que aborda esse tipo de questão através da lente específica do movimento estudantil #feesmustfall [#impostosdevemcair]. É uma música que incita nossos aliados a começar uma revolução e não sentar-se ocioso esperando por mudança – é preciso lutar pela mudança. O vídeo acompanha um “ativista de sofá” que está tão deprimido e paralisado pelo movimento que se sente alienado da luta. Ao mesmo tempo, é feito um paralelo com seu alterego, uma mulher forte e revolucionária que não está isolada e toma as ruas como sinal de protesto. A realidade de nossas existências atuais é que nós estamos lutando múltiplas batalhas derivadas do colonialismo, revolução e capitalismo na África do Sul e no Brasil.

 

 

 

Kyle De Boer é produtor, rapper e performer que trabalha em Joanesburgo, África do Sul. Ele performa como Whyt Lyon no duo Stash Crew. Formado em 2014, é uma coletivo de artistas queer que satiricamente exploram a identidade, sexualidade e políticas da África do Sul. Elxs fazem parte da comunidade LGBTQIA+ sul-africana e trabalham para aumentar a conscientização sobre a igualdade de gênero através da performance. Foto de Nu Abe

 

Explode!: Como você entende a questão do queer a partir da perspectiva e esperiência sul-africana? Quais os desafios, e também potencialidades, dessa cena, dados os aspectos da tradição e da política de seu país?

Kyle De Boer: Eu entendo que a discussão/narrativa sobre o queer é bem nova na África do Sul. Embora a nossa constituição ofereça a população LGBTQIA+ muitos direitos, a situação real é drasticamente diferente. Há muita violência perpetuada contra os corpos queer em nosso país e viver como uma pessoa queer é perigoso. Eu acredito que há uma necessidade real de mobilizar a comunidade queer sul-africana. O que acontece na prática é que a maioria dxs queers vivem e experimentam o contexto sul-africano isolados ou em pequenos grupos. Em geral, o país é muito conservador e hiper masculino, isso dificulta localizar e estabelecer espaços de segurança. A separação geográfica das pessoas, baseada em classe e raça (que ocorreu durante o Apartheid) ainda tem um impacto real na habilidade dxs queers sul-africanas se reunirem socialmente e politicamente. Creio que há um enorme potencial que está prestes a ser conquistado pela comunidade queer da África do Sul. O trabalho que tem sido criado pelos artistas queers no país é tão único, que eu acredito que se desenvolvermos um forte senso de comunidade – que é realmente viável em Joanesburgo (em particular) – podemos criar uma cena queer engajada em empreendimentos sociais, políticos e artísticos.

E!: Como a experiência em São Paulo influenciou em suas lutas, questões e poéticas como artistas? De que maneira podemos apontar uma diferença em relação ao diálogo transnacional e global?

K: Minha experiência em São Paulo foi, de verdade, um despertar para mim em muitos sentidos. Eu acho que o que mais me pareceu inspirador foi a sensação de que há uma tentativa real de se aproximar os movimentos queer que acontecem na cidade. Descobri que havia uma comunidade queer tangível e presente que trabalha em conjunto para atingir seus objetivos. Eu também percebi que as discussões políticas eram complexas e que havia uma tentativa real de se engajar com a perspectiva política de todos os ângulos. Essa abordagem inclusiva com o mundo, a arte, entre as pessoas, a política, etc. é muito poderosa e construtiva. Eu também percebi que na África do Sul nós falamos muito. Falar é bom… mas não se tem feito muito até então. Há um equilíbrio muito legal entre o processo de manifestar-se (ativamente fazer as coisas acontecerem) e o engajamento sócio-político contínuo e inclusivo. Eu realmente acredito que essa abordagem é fantástica e me inspira a tentar ajudar a criar um senso de engajamento e comunidade semelhante na África do Sul.

E!: Como as intersecções entre raça e gênero são vividas e tensionadas no contexto sul-africano? Podemos afirmar que políticas como a Rainbow Nation, implementadas por Nelson Mandela, impactaram nesse debate?

K: Essa é uma pergunta bastante difícil de responder e bastante complexa para desenrolar. Então vou tentar fazer o meu melhor. Penso que raça é uma questão muito presente no contexto sul-africano. É algo que discutimos e continuamos a desconstruir com bastante frequência – em particular em relação à nossa história, privilégio e distribuição de riqueza. No entanto, ainda há uma compreensão binária e compartimentada de raça ainda hoje. No que diz respeito ao gênero... não estou convencido de que a população em geral se envolva plenamente com esse conceito. Ainda existe uma forte compreensão binária sobre gênero na África do Sul. Dito isto, embora haja muita violência perpetuada contra os corpos queer, há uma comunidade queer cada vez mais e mais visível. Acho que a narrativa da Rainbow Nation definitivamente ajudou a suprimir grande parte da tensão que existia antes de 1994. Contudo, esta narrativa está sendo desconstruída e uma era de "Desilusão da Nação do Arco-Íris" atingiu realmente a população da África do Sul. Mas, na maioria das vezes, penso que esta narrativa ainda se impõe em grande medida com a política racial e as questões de gênero não estão totalmente incluídas como parte dessa conversa.

 

 

 

Agradecimentos: .Aurora, Abdoulaye Guibila, Adalberto Viviani, Ajamu Ikwe-Tyehimba, Aline Scátola, Andrew Lima, Andrus Santana, Aretha Sadick, Armênia “Bolinho” Gomes, Ana Andrade, Ana Carolina Marcheto Araújo, Ariel Nobre, Beatriz Matos, Benedita de Oliveira Santos, Bernardo Mota, Bibi Abigail, Biel Lima, Bojan Jovanovic, Bruno Black, Bruno Mendonça, Bruno Puccinelli, Buyani Duma, Caio André, Camila Furchi, Cakes da Killa, Carlos Eduardo Oliveira, Carmen Garcia, Carol Godefroid, Carolina Munis, Carué Contreiras, Cátia Leandro, Chico Tchelo, Centro de Cidadania LGBT Arouche, Centro de Cidadania LGBT Laura Vermont, Christine Melo, Cieja Campo Limpo, Cinthia de Abreu, Claudia Cisneylips, Clayton Nascimento, Comida de Papel, Coumba Toure & baby, Cursinho Popular TRANSformação, Dácio Pinheiro, Dalva Santos, Dani d'Emilia, Dani “Glamourosa” Rocha, Daniela Mattos, Daniel Lima, Daniel Lühmann, Dani Godoy, Danila Bustamante, Danna Lisboa, Dannyele Cavalcanti, Darlita Double-Lock, Débora Ribeiro de Lima, Diane Lima, Diego Felix, Dimas Reis Gonçalves, Duda Chufalo, Dudu Araújo, Dudu Quintanilha, Eda Luiz, Eduard Kon Rodrigues, Eduardo Carrera, Élida Lima, Ellen Oléria, Élvis Stronger, Érica Teruel Guerra, Esther Leblanc, Ézio Rosa, Fabian Alonso, Família Stronger, Félix Pimenta, Fernanda Rocha (Rede Paulista de Educação Patrimonial - REPEP), Fernando Melo, Flávio Camargo (Coletivo Coletores), Flávio Franzosi, Flip Couto, Francina Manson, Free Home University, Gabi Andrade, Gia Láctea, Gloria Groove, Govinda Lilamrta, Guilherme Livraes, Gustavo Bonfiglioli, Gustavo Torrezan, Helena Bartholomeu, Henrich dos Santos, Hugo Bler, Hugo Cabral, Intervalo-Escola, Ivan Manavi, Jackeline Romio, Jair Bueno, Jean Pierre-Michel, Jeferson Silva, Jess Nascimento, Jessy Velvet, João Marcos de Almeida, João Pedro Innecco, Jô Gada Away, Joni Barnard, Jota Mombaça, Júlia Ayerbe, Júlia Cavazzini, Juliana dos Santos, Júnior Ahzura, Ju Whacking, Kabila Aruanda, Kaciano Gadelha, Karen Cunha, Katia Pires Chagas, Kholoud Bidak, Kika Simões, Kyle de Boer, Laura Daviña, Lanchonete.org, Leandro Moraes, Lee Ann Norman, Lígia Nobre, Lilian Sales, Lilyth Ester Grove, Liniker Barros, Lua Lucas, Luana Carvalho, Luana Lopes, Lucas Matheus, Lufe Steffen, Maitê Freitas, Malu Minassian, Manuel Souza do Valle, Marcos Ribeiro, Marilia Jahnel, Mavi Veloso, MC Xuxu, MEXA, Michael Roberson, Michelle Matiuzzi, Midiã Claudio, Musagetes, Natália Nolli, Nati Simões, Nelson D., Nu Abe, Odaymara Pasa Kruda, O grupo inteiro, Olívia Kruda Prendes, Patrícia Borges, Pato Hebert, Paula Zaidan Guimarães, Paulo Goya, Paulo Henrique Rodrigues, Paulo Scharlach, Pedro Avila, Pony Zion, praça das Artes, Preto Teo, Priscila Valentina, Raphael Daibert, Raisa Martins, Raquel Blaque (Nega), Regina Marques, Renata Martins, Renato Cymbalista, Revolta da Lâmpada, Rico Dalasam, Rita Quadros, Robert Sember, Rodrigo Vianna, Rogerio Migliorini, Romário Monte, Ruan Levy Reis, Sabrina Pimenta, Salete dos Anjos, Sandra Bueno, Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo, Sérgio L. Sérvollo, Serviço Funerário do Município de São Paulo – Cemitério da Consolação, Sesc SP, Shawn Van Sluys, Simone Wicca, Siya Ngcobo, Steph Yates, Suellen Calonga Pessoa, Swadhyaya S. Dos Santos, Symmy Larrat, T. Angel (frrrkguys), Tainá Azeredo, Tássia Reis, Teatro Cemitério dos Automóveis, Thato Ramaisa, Thiago Carrapatoso, Thiago Hersan, Tiago Guiness, Todd Lanier Lester, Toni William (Coletivo Coletores), Udney Matheus, Ueriques Samuel, Ultra-red, Valentina Chaves Luz, Vanessa Oliveira, Vi Grunvald, Wilssa Esser, Yala Hagen, Yeti Agnew

 

 

Se você tem alguma questão sobre imagens, nomes ou créditos nessa página, por favor envie uma mensagem para: boom@explode.life